Releitura do conto O Enfermeiro realizada pela aluna:
Deuselina Lima dos Santos
Estive recentemente visitando o asilo de idosos, Lar dos Velhinhos Felizes, uma antiga instituição localizada em Niterói. Conversei com muitos deles, mas um me chamou atenção: o enfermeiro Procópio, como era chamado por todos.
O senhor Procópio olhava-me fixamente, como se desejava que eu fosse falar com ele para conversarmos. Entendi a silenciosa solicitação e aproximei dele. Ele Imediatamente se pôs a falar apressado e arrastado:
- Jovem senhora, por favor, sente-se aqui e ouça a história deste velho enfermeiro, ao qual restam apenas uns poucos momentos mais de vida. Um dia, talvez menos. Quero lhe contar a história da origem da minha fortuna, pois certamente sabes que sou um homem rico. Esta história eu carrego já há 40 anos:
“Quando eu tinha cerca de 40 anos, vivia de favores na casa de um amigo que recebeu uma carta de um antigo conhecido da família solicitando-lhe a gentileza de indicar para contratação alguém de boa índole e de confiança para trabalhar de enfermeiro. Aceitei relutantemente a princípio, pois achava que tinha que sair da situação, já constrangedora em que me encontrava.
As informações que meu amigo me dera a respeito do conhecido não eram encorajadoras, ao contrário, eram assustadoras: o fulano era violento e estava bastante enfermo. De qualquer forma aceitei e me dirigi para uma pequena cidade do interior, onde residia o tal contratante. Descobri que o mesmo era um rico fazendeiro criador de gado e produtor de café.
Desde o início dos meus trabalhos de enfermagem, que duraram apenas oito meses, os piores oito meses da minha vida, nossa relação foi tumultuada. As agressões físicas e verbais, que fulano me dirigia, eram constantes desde o acordar até o anoitecer.
Um dia, não agüentando aquela situação, e saber do fato de que ele não resistiria a minha desistência, comuniquei-lhe que estava me despedindo do serviço. A reação dele foi violenta e atracou-se comigo no alto da escada. Para me livrar do seu agarrão – e aqui vai uma confissão que nunca fiz a ninguém - num movimento brusco e violento empurrei-o escada abaixo.
Não sei como descrever os ruídos da queda, mas carreguei pelo resto da vida aquilo que me pareceu os sons de seu pescoço se quebrando durante a queda. Não houve suspeitas, sua morte foi atribuída como um infeliz acidente, convenientemente descrito por mim mesmo.
Uma semana depois do funeral, fui surpreendido pelo comunicado do advogado do fulano, de que eu havia sido nomeado seu herdeiro universal. Logo imaginei: Como assim? O velho rabugento tinha então coração? E a quem ele compensava, pouco antes de morrer? A mim!!! O seu próprio assassino! Apesar de todo o constrangimento, aceitei a herança, como se dela fosse merecedor. Ajudei a uns poucos, aqui e acolá, mas aprendi a fazer as pazes com a posse da herança, encontrando justificativas fracas, mais ou menos plausíveis para aquela posse. E finalmente aqui estou. Condenado a morrer em poucos dias e desejoso desta confissão e de um último ato de bondade”
Fiquei espantada com tudo o que o senhor Procópio me contou e então me dei conta de que não havia uma justificativa para ele me contar tudo isto.
- Senhor Procópio, perguntei-lhe ansiosa. Por que razão me contou tudo isto? O senhor sabe que posso lhe denunciar, mesmo após todos esses anos? O que senhor espera que eu faça?
A resposta dele foi contundente:
- Jovem senhora não posso lhe dizer exatamente o que vai fazer, mas faço uma idéia, que acho quase certa. Fique a senhora sabendo que eu lhe nomeei minha herdeira universal. Logo após a minha morte a senhora entrará na posse de tudo que me restou, e foi a maior parte, da fortuna do fulano que matei há 40 anos atrás.
É... E agora José?
Fim
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